Segundo os últimos dados do Pnad, 3,7% das crianças e adolescentes do estado de São Paulo vivem em situação de extrema pobreza. O futuro do país clama por atenção.

Kauã acorda cedo, ao som dos movimentos de sua mãe, que se prepara para ir trabalhar. Levanta da cama, se arruma e aguarda a hora de sair para a casa da avó. É lá onde ele toma café da manhã e encontra um celular para assistir Pica Pau, seu desenho preferido. O garoto de oito anos vive sua infância como todas as crianças vivem: um pé aqui e o outro na imaginação. Esta, por sua vez, reflete as particularidades do seu mundo real.

“Se hoje aparecesse um gênio, desses de lâmpada, e você pudesse lhe fazer qualquer pedido, qual seria?”, pergunto. “Uma casa”, responde de pronto, e complementa: “igual aquelas de rico”.

Insisto e peço que me diga como é uma casa de rico. O garoto pensa enquanto olha para o teto. “Tem geladeira, uma cama pra cada pessoa e um armário”, e me olha como quem diz o óbvio.

Há muitas São Paulos dentro de São Paulo. Kauã vive em uma distante, escondida entre os paredões cor de tijolo que se formam nos morros. A chamada “área livre” é uma favela dentro de outra favela, em Osasco. Chão de barro, esgoto a céu aberto e barracos construídos com pedaços do que dá: madeirite, estrados de cama, lona, e partes de toldos.

Suas íngremes vielas formam um labirinto extenso e confuso, onde só é possível transitar a pé. A fragilidade de suas estruturas marca, também, a fragilidade de seus moradores. Sempre alertas à possibilidade de ter seus lares consumidos por incêndio – tão repentinos quanto corriqueiros – ou varridos pela próxima temporada de chuvas.

Kauã não se queixa de viver aí, mas devaneia sobre um lar onde as paredes sejam de concreto e ele possa caminhar pela rua, ou ter um quintal para brincar.

Segundo os últimos dados do Pnad, 3,7% das crianças e adolescentes do estado de São Paulo vivem em situação de extrema pobreza. Significa dizer que 312.087 dos nossos meninos e meninas de zero a 14 anos devem morar, se alimentar, se vestir, se locomover, e arcar com o restante de custos pertencentes ao – encolhido – universo juvenil com menos de R$ 241 por mês.

A única receita da casa de Kauã vem através das faxinas feitas por sua mãe, Regiane Carvalho Amaral. O dinheiro curto nem sempre alcança todas as despesas de um lar composto por quatro pessoas. Ao ser perguntada sobre o desafio de ser mãe nestas condições, Regiane narra as experiências de uma maternidade marcada pela inconstância.

O desafio é que nem sempre tem o que se precisa. Às vezes não tenho um pão, uma bolacha para dar a eles. Às vezes eu peço ajuda pra minha mãe, a gente se ajuda muito, mas nem sempre ela pode – faz uma pausa – e nem sempre eu quero pedir”.

Nem sempre há comida, nem sempre há dinheiro para coisas básicas, nem sempre há possibilidades de acesso às tantas atividades que poderiam contribuir para o desenvolvimento de seus filhos.

“Quando vou trabalhar, levo eles para a casa da minha mãe, aqui é perigoso. O barraco pode pegar fogo ou pode ter tiroteio, se uma bala atravessa até cimento, imagina o que não faz nessas paredes de madeirite?”, indaga.

O presente e o futuro

São muitos os possíveis reflexos destas infâncias transpassadas por diferentes vulnerabilidades. Um deles é o pouco repertório para idealizar um futuro diferente.

Kauã, ao se imaginar com 30 anos, diz que será um “homem que trabalha”. “Provavelmente como empregado de uma pessoa, cuidando da casa dela; é o mais normal”, acrescenta.

Isto acontece porquê, segundo o sociólogo Claudiovan Silva, o contexto em que as crianças estão inseridas, suas vivências e experiências, refletem na maneira como leem e interpretam o mundo.

“Os sujeitos projetam seus horizontes a partir do seu lugar, e algumas crianças e adolescentes não possuem as condições sociais básicas para projetar sonhos que as movam no sentido de que no futuro possam ter melhores condições de vida”, defende.

Contudo, a psicóloga e mestre em Psicologia comunitária Heloisa de Souza Dantas alerta para o fato de que a pobreza em si não é um fator que inibe sonhos. Mas a situação de profunda vulnerabilidade social somada à ausência de políticas públicas e iniciativas que atuem neste sentido.

Heloísa esclarece que além da necessidade dos cuidados básicos, é fundamental para o desenvolvimento da criança o acesso à educação, ao lazer, às brincadeiras, à cultura e ao esporte. Atividades que a permitam explorar o mundo, seus limites e suas possibilidades. E ser coerente com o que se é naquele momento: um ser em expansão.

A ADRA, as crianças e seus direitos

Neste cenário, a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA) têm se tornado grande aliada do desenvolvimento infanto-juvenil.

Izabel Solani, assistente social dos Núcleos de Desenvolvimento da ADRA Brasil na região Paulistana, explica que o trabalho da agência é parte da engrenagem nacional de proteção infantil.

“Nesses espaços o universo lúdico é estimulado e as crianças podem ser apenas crianças. Nas diferentes oficinas que oferecemos em áreas como música, artes, informática, esporte (…) visamos plantar sonhos e fomentar talentos para, assim, ajudá-los a projetar novos horizontes”, explica.

O garoto Kauã participa de um destes núcleos. Ali ele lê e ouve histórias, faz artesanatos, joga futebol, aprende culinária, brinca e alimenta suas fantasias infantis.

Kauã tem pouco passado mas todo um futuro pela frente. Em seguida, depressa demais, ele e as outras 312.086 crianças serão adultas e comporão o quadro social presente. O farão da forma que puderem através da bagagem, dos acessos e das oportunidades que lhes forem oferecidos no decorrer do caminho. Hoje, a pergunta a ser feita é: que mensagem trazem do futuro? [Giselly Abdala ]